Circula no WhatsApp e no Facebook um vídeo que conta a suposta história de Priscila, apresentada como enfermeira de Montes Claros, em Minas Gerais, que teria sido esfaqueada pelo marido e precisaria de uma cirurgia de emergência. A publicação pede doações para custear o tratamento. A história é falsa e utiliza imagens e áudios gerados por inteligência artificial para dar credibilidade a um golpe de arrecadação.
O conteúdo afirma que a filha de Priscila, identificada como Laura, de 11 anos, teria salvado a mãe ao pedir ajuda por telefone. Segundo a narrativa, a mulher teria sofrido sete facadas, desenvolvido uma infecção e precisaria passar por uma cirurgia antes que seu estado de saúde piorasse. A publicação também alega que o Sistema Único de Saúde (SUS) demoraria oito meses para realizar o procedimento.
A verificação da Agência Lupa, publicada em 17 de setembro de 2026, identificou inconsistências na história e elementos que indicam fraude. Não foram encontrados registros que comprovem o caso descrito nas publicações.
O que a apuração encontrou
A Agência Lupa pesquisou notícias sobre uma enfermeira chamada Priscila que trabalharia em uma unidade de pronto atendimento de Montes Claros, teria uma filha chamada Laura e teria sido esfaqueada pelo marido. As buscas não localizaram reportagens sobre o caso em veículos nacionais ou em portais locais, como o Jornal Montes Claros e o Estado de Minas.
A equipe também identificou um problema na descrição do suposto local de trabalho da mulher. O site de doações afirma que Priscila seria enfermeira da “UPA Montes Claros”, mas a cidade possui uma unidade em funcionamento chamada UPA Chiquinho Guimarães.
Em resposta à Lupa, a Prefeitura de Montes Claros informou que não há nenhuma enfermeira chamada Priscila trabalhando na unidade e que não existe registro de agressão correspondente à história divulgada.
Outra inconsistência aparece na descrição do pedido de socorro. No vídeo, a menina teria ligado para o número 190, destinado à Polícia Militar. Já o texto da publicação afirma que a ligação foi feita para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), cujo número é 192.
Imagens e áudios foram gerados por inteligência artificial
A análise do material identificou sinais de que os recursos audiovisuais foram produzidos artificialmente. O áudio apresentado como uma ligação de Laura para um serviço de emergência foi analisado pela ferramenta Hive, que apontou a geração por inteligência artificial.
A gravação utilizada para narrar a história também foi identificada como artificial pela ferramenta. Além disso, a Lupa observou um descompasso entre a fala e os movimentos dos lábios da mulher que aparece no vídeo, outro indício de manipulação.
As imagens apresentadas como fotografias de Priscila, da filha e do marido também foram examinadas. As buscas reversas não localizaram registros anteriores que confirmassem a origem das fotografias.
Ferramentas como Hive, Sightengine e SynthID foram utilizadas na análise. Os resultados indicaram sinais de geração ou edição por inteligência artificial, incluindo a identificação de tecnologia do Google na criação de uma das imagens. Esses elementos reforçam que as fotografias não constituem provas de que a história aconteceu.
Como funciona o golpe de doações
O site utiliza a narrativa de uma mulher em situação de risco e de uma criança que tenta salvar a mãe para sensibilizar os usuários. As imagens, os relatos emocionais e a alegação de urgência médica são apresentados para estimular contribuições financeiras.
A página também exibe comentários atribuídos a pessoas que supostamente fizeram doações. No entanto, a apuração não encontrou evidências que comprovassem a autenticidade desses depoimentos. Comentários falsos podem ser utilizados para transmitir uma aparência de confiança a páginas fraudulentas, prática conhecida como avaliação falsa.
O pagamento é solicitado por meio de Pix. Embora seja um meio legítimo de transferência de dinheiro, o recurso pode ser explorado por criminosos para receber valores de vítimas de fraudes digitais.
A Lupa já havia identificado outros golpes que utilizavam histórias falsas sobre pessoas doentes e supostas organizações de proteção animal para arrecadar dinheiro nas redes sociais. Em novembro de 2025, a agência publicou verificações sobre fraudes com características semelhantes.
Por meio dessa apuração, o SeAlui classifica o conteúdo como Conversa Fiada. É mentira pura! Essa história foi inventada para enganar o povo, gerar confusão ou ganhar cliques. Não repasse de jeito nenhum.
Fonte da apuração original: Agência Lupa, publicada em 17 de setembro de 2026.
